Porto
Alegre sedia etapa da Copa Brasil de Xadrez para Deficientes Visuais a partir
desta sexta-feira (16)
15/03/2018 - 18h55minAtualizada em 15/03/2018 -
19h43min
JÉSSICA REBECA WEBER
Roberto ( de costas) e Luiz
Eduardo estão entre os enxadristas que, a partir desta sexta-feira, participam
da competição. Omar Freitas / Agencia RBS
Luiz Eduardo lê o tabuleiro com as mãos. Enquanto
Roberto movimenta uma peça, do outro lado da mesa, o menino desliza rapidamente
os dedos entre peões, torres e bispos.
— Cavalo, Gustav 5 — anuncia, dando três pulinhos
na cadeira de tão animado com a jogada.
Tanto Luiz Eduardo Fonseca Dorneles, 11 anos,
quanto Roberto Luiz Veiga Oliveira, 63 anos, são cegos e vão participar da
primeira etapa do ano da Copa Brasil de Xadrez para
Deficientes Visuais a partir desta sexta-feira (16) na Capital. Na
competição, promovida pela Federação Brasileira de Xadrez para Deficientes
Visuais (FBXDV) com a parceria da Associação de Cegos do Rio Grande do Sul, o
menino de Brasília e o fisioterapeuta de Porto Alegre vão se juntar a cerca de
50 jogadores de todo o país, que não ficariam para trás diante de competidores
sem deficiência visual.
—A gente tanto pode jogar contra cego contra quem
enxerga também. Não tem (desvantagem). Vai depender de cada um, do estudo, e do
quanto você joga — diz Oneide Souza Figueiredo, diretor de programação e
eventos da Federação.
É claro que o xadrez para cegos têm adaptações. Em
vez de um tabuleiro, são usados dois. Cada jogador precisa reproduzir no seu a
jogada anunciada pelo adversário.
— Isso é para não atrapalhar o outro. Senão ia ter
quatro mãos tateando o tabuleiro. O adversário ia me dar um tapa no ouvido —
diverte-se Oneide.
Quem olha com mais atenção também repara que as
casas pretas têm altura diferente das brancas, bem como as peças de uma das
cores se distinguem no tato — normalmente são ásperas. Abaixo delas, há pinos
para que fiquem presas a pequenos buracos no tabuleiro. É para não cair
enquanto o enxadrista faz a leitura de jogo com as mãos.
Na borda do tabuleiro, ainda estão escritos em
braile o número e a letra a que corresponde cada casa. Para não dar confusão na
hora de cantar ao adversário a jogada feita, os enxadristas cegos apelidaram as
casas — o que justifica o "Gustav" cantado por Luiz Eduardo. A é Ana;
B, Bela; C, Cézar; D, David; E Eva; F, Félix; G, Gustav; e H, Hector.
Para finalizar, a regra do "tocou,
jogou", não se aplica no esporte entre pessoas com deficiência visual. Se
levantar a peça, daí sim é preciso completar a jogada.
Oneide, que também é enxadrista e cego, acompanhava
o jogo de brincadeira travado entre Luiz Eduardo e Roberto a pedido de GaúchaZH
no salão de festas do seu prédio. Em certo momento, relatou ao menino:
— Eu vi que tu ia fazer isso.
É que, ouvindo as jogadas, ele memorizou os
movimentos de cada um e sabia tudo o que estava acontecendo, como se tivesse um
mapa mental da partida. Isso não é incomum entre enxadristas cegos.
— Já joguei (mentalmente) em um velório com um
amigo — acrescenta Roberto, rindo.
Experiência não falta aos dois: tanto Roberto
quanto Oneide começaram a jogar há mais de 30 anos. Roberto comprou um
tabuleiro de xadrez durante o veraneio na praia de Rondinha, para entreter o
filho de cinco anos _ que hoje tem 36. No mesmo ano, inscreveu-se no torneio do
hotel, o único cego entre enxadristas que enxergavam.
Roberto ajudou a fundar a Liga Braille de Xadrez em
1989, entidade que originaria a Federação, e participou inclusive de Olimpíada
mundial de xadrez para cegos realizada em Laguna (SC) em 1996. Não se saiu bem,
como ele mesmo confessa, mas não foi tempo perdido.
— Foi gratificante e motivador para levar adiante —
comenta.
Na competição deste final de semana, jovens
talentos como Luiz Eduardo terão a oportunidade de competir com gente
experiente como Roberto, uma vez que não é feita distinção por idade. O menino
de Brasília joga há um ano e três meses, e ele mesmo afirma que o xadrez já
melhorou seu raciocínio e comportamento — a mãe, Janaina Chaves Fonseca, 42
anos, comemora a redução da ansiedade e o aumento da paciência do menino.
Desde então, Luiz já participou de competições no
Distrito Federal, em Blumenau (SC), Caruaru (PE), Belo Horizonte (MG), além de
Porto Alegre. Viajar e fazer novos amigos é o que mais gosta nesta recente vida
de enxadrista, conta ele. Mas quando a mãe lhe pergunta do que mais gosta no
jogo em si, não faz rodeios:
— De ganhar.
A abertura da Copa Brasil está marcada para às
13h30min de sexta-feira (16), e o campeão deve ser conhecido por volta das 11h
de domingo (18). As próximas etapas serão realizadas até novembro em Recife,
Brasília, São Paulo e Curitiba.
Primeira etapa da Copa Brasil de Xadrez para
Deficientes Visuais:
Hotel City (Rua José Montaury, 20, Centro
Histórico)
De sexta-feira (16) a domingo (18)
O evento é aberto ao público.
FONTE:
Jornal “ZERO HORA”, de Porto Alegre
(online).

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